Capítulo 7 de 11 · Manual da Eletroneuromiografia

Doenças que a eletroneuromiografia investiga

Capítulo 7 do Manual da Eletroneuromiografia: nove grupos de doenças, o que o exame mostra em cada um e o que ele não resolve sozinho.

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Atualizado em 8 de setembro de 2026 · Equipe Instituto Saúde

Resumo em 30 segundos

  • As compressões focais — túnel do carpo, neuropatia ulnar no cotovelo, fibular no joelho — são as doenças mais diagnosticadas pela ENMG.
  • Nas radiculopatias cervical e lombar, o exame diz qual raiz está sofrendo e se há dano ativo, complementando a ressonância.
  • Nas polineuropatias (diabetes, álcool, B12, quimioterapia), a ENMG confirma, gradua e classifica em axonal ou desmielinizante.
  • Guillain-Barré, ELA, miastenia e miopatias têm assinaturas próprias no exame; em todas elas a ENMG é parte do diagnóstico, não o todo.
  • Na paralisia facial, a ENMG da face feita após duas a três semanas estima a proporção de fibras lesadas e ajuda a prever a recuperação.

Uma mesma eletroneuromiografia pode terminar em diagnósticos muito diferentes: de uma compressão simples no punho a uma doença neuromuscular rara. O que muda é a assinatura elétrica de cada condição — onde a condução desacelera, quais músculos mostram desnervação, se a resposta cai com estímulos repetidos. Este capítulo apresenta os nove grupos de doenças que mais aparecem nos laudos, com o que o exame mostra, o que ele não mostra e o que costuma vir depois.

Para saber qual queixa leva a cada suspeita, veja quando o médico pede a ENMG; para entender os termos técnicos que aparecem no laudo de cada doença, veja como ler o laudo.

Como a eletroneuromiografia diagnostica a síndrome do túnel do carpo?

Na síndrome do túnel do carpo, a ENMG mostra lentificação do nervo mediano ao atravessar o punho: latência sensitiva e motora prolongadas em comparação com o nervo ulnar do mesmo lado e com o mediano do outro. O exame gradua a compressão em leve, moderada ou grave, o que orienta entre tala, infiltração e cirurgia.

É o diagnóstico mais frequente do exame. Nos casos iniciais, só a condução sensitiva se altera, e o médico usa testes comparativos (mediano versus ulnar no dedo anular ou na palma) para detectar diferenças de décimos de milissegundo. Nos casos avançados, a amplitude motora cai e a eletromiografia do músculo abdutor curto do polegar mostra desnervação — sinal de que a compressão já custou axônios e de que a cirurgia não deve esperar.

O que a ENMG não faz: não mede a pressão dentro do túnel nem mostra a causa (tenossinovite, cisto, hipotireoidismo, gravidez). Em cerca de uma em cada dez pessoas com sintomas típicos o exame é normal — o chamado túnel do carpo eletrofisiologicamente negativo — e o tratamento é decidido pela clínica.

O que a ENMG mostra na neuropatia ulnar no cotovelo?

Na neuropatia ulnar no cotovelo, a ENMG mostra queda da velocidade de condução motora restrita ao segmento que passa pelo cotovelo, muitas vezes com bloqueio parcial da condução ali. Estimulando acima e abaixo do cotovelo, o médico localiza a compressão; a eletromiografia dos músculos da mão indica se há perda de axônios.

É a segunda compressão mais comum dos braços e a que mais confunde com problema de coluna, porque a dormência no dedo mínimo também pode vir da raiz C8. O exame separa as duas: na neuropatia ulnar a condução sensitiva do ulnar está alterada; na radiculopatia C8 ela está normal e a desnervação aparece também em músculos não ulnares. O exame ainda diferencia a compressão no cotovelo da compressão no punho (canal de Guyon), mais rara, em que os músculos do antebraço são poupados.

Como a eletroneuromiografia investiga hérnia de disco e radiculopatia?

Nas radiculopatias cervical e lombar, a ENMG identifica a raiz comprometida pela distribuição da desnervação: músculos de uma mesma raiz (miótomo), incluindo os paravertebrais, mostram fibrilações ou potenciais de reinervação, enquanto a condução sensitiva permanece normal — porque a lesão fica antes do gânglio sensitivo. Ela confirma que a hérnia vista na imagem é a causa funcional.

As raízes mais afetadas são C6 e C7 no pescoço e L5 e S1 na lombar. O exame é mais sensível quando há fraqueza ou atrofia e menos quando a queixa é só dor, porque fibras sensitivas de raiz não são medidas diretamente. Por isso uma ENMG normal não exclui radiculopatia dolorosa; ela exclui, com boa segurança, dano motor relevante.

Na prática, o laudo ajuda em três decisões: confirmar o nível a ser operado quando a imagem mostra mais de um; distinguir radiculopatia de compressão periférica que a imita (túnel do carpo, fibular); e documentar cronicidade — potenciais grandes e estáveis apontam para lesão antiga, sem atividade, em que a cirurgia tem menos a oferecer.

O que a ENMG mostra na polineuropatia diabética?

Na polineuropatia diabética, a ENMG revela perda simétrica e dependente do comprimento: as respostas sensitivas dos pés (nervo sural) são as primeiras a reduzir de amplitude, depois as motoras distais, com velocidade pouco alterada — padrão axonal. O exame confirma o diagnóstico, gradua a gravidade e afasta compressões que se somam ao quadro.

O diabetes é a causa mais comum de polineuropatia no Brasil, mas o mesmo padrão aparece na deficiência de vitamina B12, no uso crônico de álcool, na quimioterapia, na insuficiência renal e em doenças hereditárias como Charcot-Marie-Tooth (esta com velocidade muito reduzida, padrão desmielinizante). A ENMG não diz a causa; diz o tipo e a extensão, e o médico cruza com exames de sangue.

Limite importante: a neuropatia de fibras finas, responsável pela queimação e pela dor dos pés em muitos diabéticos, não é detectada pela condução convencional. Um laudo normal com sintomas típicos não afasta o problema; testes específicos (quantitativo sensitivo, biópsia de pele) podem ser necessários.

Como a eletroneuromiografia ajuda na síndrome de Guillain-Barré?

Na síndrome de Guillain-Barré, a ENMG mostra sinais de desmielinização aguda em vários nervos: ondas F ausentes ou muito atrasadas, latências distais prolongadas, bloqueios de condução e dispersão das respostas. Nos primeiros dias o exame pode ser normal ou mostrar só alteração das ondas F, e costuma ser repetido após uma a duas semanas.

O exame também classifica a variante: a forma desmielinizante (AIDP), mais comum no Ocidente, e as formas axonais (AMAN, AMSAN), com amplitudes reduzidas e velocidade preservada. Essa distinção tem valor prognóstico. Na fase crônica, a ENMG diferencia o Guillain-Barré da polirradiculoneuropatia desmielinizante inflamatória crônica (CIDP), que exige tratamento contínuo, e acompanha a resposta à imunoglobulina ou à plasmaférese.

O que a ENMG mostra na ELA e nas doenças do neurônio motor?

Na esclerose lateral amiotrófica, a ENMG mostra desnervação ativa (fibrilações, ondas positivas) e crônica (potenciais grandes, recrutamento reduzido) em músculos de várias regiões do corpo, com fasciculações e condução sensitiva normal. Os critérios diagnósticos exigem esse padrão em pelo menos três regiões, por isso o exame é sempre de quatro membros e pode incluir músculos da língua ou do tronco.

É a investigação mais delicada do exame, porque o diagnóstico tem peso e porque outras doenças o imitam: neuropatia motora multifocal com bloqueio de condução (tratável), mielopatia cervical com radiculopatia, miopatias com corpúsculos de inclusão. A ENMG é feita justamente para separar essas possibilidades. Um exame com fasciculações isoladas, sem desnervação, não sugere ELA — a síndrome de fasciculação benigna é comum e inofensiva.

Como a ENMG investiga a miastenia gravis?

Na miastenia gravis, a condução nervosa e a eletromiografia convencional são normais; o que altera é a junção neuromuscular. A ENMG usa a estimulação repetitiva a baixa frequência: uma queda progressiva da resposta muscular acima de 10% (decremento) sustenta o diagnóstico. Em casos duvidosos, a eletromiografia de fibra única mede a instabilidade da transmissão (jitter).

A sensibilidade da estimulação repetitiva é maior em músculos proximais e da face, e menor nas formas puramente oculares; por isso o exame normal não afasta miastenia, e o médico combina com anticorpos (anti-AChR, anti-MuSK) e teste terapêutico. A piridostigmina, quando suspensa com orientação antes do exame, aumenta a chance de detectar o decremento — detalhe no capítulo de preparo. A síndrome de Lambert-Eaton, mais rara, tem padrão oposto: resposta que aumenta após esforço breve.

O que a eletroneuromiografia mostra nas miopatias?

Nas miopatias, a ENMG mostra potenciais de unidade motora pequenos, curtos e polifásicos, com recrutamento precoce — muitas unidades sendo ativadas para pouca força — e condução nervosa normal. Nas miopatias inflamatórias (polimiosite, dermatomiosite) e em algumas distrofias há também atividade espontânea em repouso; o exame orienta o local da biópsia muscular.

O exame não diz qual miopatia é: distrofias, miopatias metabólicas, tóxicas (estatinas, corticoide) e inflamatórias podem parecer iguais na agulha. O que ele faz com segurança é separar 'doença do músculo' de 'doença do nervo' em um paciente com fraqueza proximal, evitando biópsias desnecessárias, e indicar o músculo mais alterado — mas ainda não atrofiado — para a biópsia quando ela é necessária.

A eletroneuromiografia serve para paralisia facial?

Sim. Na paralisia facial periférica (paralisia de Bell, traumática ou pós-cirúrgica), a ENMG da face compara a amplitude da resposta dos músculos do lado paralisado com a do lado normal e examina esses músculos com a agulha. Feita entre o 10º e o 21º dia, ela estima a proporção de fibras degeneradas e ajuda a prever a recuperação.

Amplitude preservada acima de cerca de 30% do lado sadio costuma indicar boa recuperação em semanas; valores muito baixos apontam para recuperação lenta e incompleta, com maior risco de sequelas como sincinesias (a boca que se mexe ao fechar o olho). Essa informação orienta a fisioterapia e a discussão de tratamentos adicionais. O reflexo do piscar (blink reflex) complementa o estudo. Nos primeiros dias da paralisia o exame não é útil, porque o nervo abaixo da lesão ainda conduz.

Perguntas frequentes: doenças investigadas

A ENMG diagnostica esclerose múltipla?

Não. A esclerose múltipla afeta o sistema nervoso central (cérebro, medula, nervo óptico), que a ENMG não avalia. O exame pode ser pedido para afastar doenças periféricas que imitam sintomas da EM, mas o diagnóstico depende de ressonância, líquor e potenciais evocados.

O exame mostra lesão do plexo braquial?

Sim. Após acidentes de moto, partos difíceis ou cirurgias de ombro, a ENMG mapeia quais troncos e cordões do plexo foram atingidos, diferencia de avulsão de raiz (em que a condução sensitiva se preserva apesar da anestesia) e acompanha a reinervação ao longo dos meses.

Serve para investigar síndrome do desfiladeiro torácico?

Serve para a forma neurogênica verdadeira, em que há alteração do tronco inferior do plexo: amplitude reduzida do sensitivo ulnar e do motor mediano, com desnervação nos músculos da mão. As formas vasculares e as 'inespecíficas', mais comuns, costumam ter ENMG normal.

A eletroneuromiografia detecta neuropatia por quimioterapia?

Sim. Quimioterápicos como oxaliplatina, paclitaxel, vincristina e bortezomibe causam polineuropatia sensitiva axonal, que a ENMG confirma e gradua. O exame pode servir de referência antes do tratamento e orientar ajustes de dose em conjunto com o oncologista.

O exame ajuda na síndrome das pernas inquietas?

Indiretamente. A síndrome das pernas inquietas não altera a ENMG, mas uma polineuropatia pode causar sintomas parecidos ou coexistir com ela; o exame é pedido para afastar essa possibilidade quando os pés também ficam dormentes.

Se o laudo diz 'exame normal', posso descartar todas essas doenças?

Não todas. Um exame normal afasta com boa segurança compressões moderadas a graves, polineuropatias de fibras grossas e doença do neurônio motor estabelecida. Não afasta neuropatia de fibras finas, miastenia ocular, radiculopatia puramente dolorosa nem lesões muito recentes. A interpretação é sempre clínica.

Onde fazer a eletroneuromiografia

Unidades do Instituto Saúde com página própria do exame — endereço, WhatsApp da unidade, valor atualizado e prazo do laudo em cada uma.

Outras cidades: ENMG 2 membros, ENMG 4 membros e ENMG da face (troque a cidade na URL) · eletroneuromiografia no Instituto Saúde · preparo oficial.

(31) 3244-1818

Conteúdo informativo produzido pela equipe do Instituto Saúde a partir da rotina dos médicos neurofisiologistas da rede; não substitui consulta nem interpreta laudos individuais. Publicado em 8 de setembro de 2026; última revisão em 8 de setembro de 2026.